Da Boca do Monte, e da desconfiança
* Hugo Paulo Gandolfi de Oliveira,
jornalista, professor universitário
Domingo, de manhã cedo, a televisão informa: “90 mortes em um incêndio numa boate no interior do Rio Grande do Sul. Foi em Santa Maria, a 300 quilômetros de Porto Alegre, no centro do Estado”.
Para quem, como este que aqui escreve, formou-se no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Maria, a associação com a cidade foi imediata. No decorrer do tempo, e da tragédia, com a elevação do número de mortos aumenta a percepção de um fato assustador. As boas imagens da cidade são relembradas, e substituídas pelas piores de agora.
A “Primeira Quadra” da Rua Dr. Bozano, o “Vento Norte”, a Avenida Rio Branco, o “Prédio da Reitoria”, o Edifício Taperinha, da Santa Maria da Boca do Monte, passam a ser lembranças associadas ao local de uma das maiores tragédias do Brasil, e do mundo em ambiente fechado. A morte de mais de 230 pessoas, a absoluta maioria jovens, numa boate, passa a ser ligada diretamente às lembranças de uma cidade que também é o “Coração do Rio Grande”.
E o Coração do Rio Grande, o Rio Grande do Sul todo e o Brasil, estão chocados: o coração de cada cidadão bateu mais forte. Como não bate bem a consciência desses seres ditos “humanos” que, animalescamente, utilizam-se do fácil instrumento da internet para verdadeiras idiotices, algumas criminosas.
A brutalidade de um acontecimento inesperado, a mortandade que provocou, também provocam questionamentos. Por exemplo: De que servirão essas mortes, ou o quanto essas vidas que se foram irão gerar atitudes para evitar novas tragédias e impedir desconfianças?
Ao passar o primeiro momento, mesmo procurando-se evitar a generalização, não é de se estranhar que “tudo volte a ser como dantes”. Muitas autoridades, sempre pródigas em anunciar fatos, não são ágeis em prodigamente atuar para evitar acontecimentos nefastos como esse de Santa Maria, até porque alguns podem denotar inoperância delas próprias. Aliás, chama a atenção a maneira superficial, insegura, insincera, como muitas dessas mesmas autoridades, que deveriam evitar tragédias, alegam agora estar fazendo o necessário para que não voltem a ocorrer, no Brasil todo.
É bom duvidarmos. Autoridades agem de uma forma na comoção, e de outra quando ela é passado. Assim como nós, cidadãos, assim como nós, jornalistas, neste mundo imediatista, de muita ação transitória. Elas, as autoridades, os ditos homens públicos, em sua maioria, têm outras preocupações, até que uma nova tragédia surja, certamente porque não são devidamente cobradas e punidas.
O jogo de empura-empurra é tradicional, e covarde. Não estranhemos se os culpados em Santa Maria fiquem impunes ou tenham punibilidade pequena, e acabem sendo punidas somente aquelas mais de 230 almas que foram levadas a uma boate sem as mínimas condições, mesmo que uma alta patente do Corpo de Bombeiros gaúcho tenha dito que “tudo estava em ordem”. Sim, estava tão em ordem que, sem saída, mais de 230 morreram, porque foram a um cubículo onde estavam somadas a irresponsabilidade dos proprietários e a incompetência de órgãos públicos.
Se um órgão sério e independente, como o Ministério Público, não ficar bem atento, outras tragédias virão, como umas vieram depois de outras em anos passados, e esse risco é permanente. Medidas preventivas são como obras de saneamento básico: não aparecem, e muitas podem ser - para alguns -, até “antepáticas” e, além disso, “não dão voto”. De certa forma, é como a educação: para que termos um povo educado, que será mais exigem, questionador, menos apático e – perspicaz –, saberá mais e melhor o que quer?
A própria imprensa, tão competente e ágil na cobertura do lastimoso fato de Santa Maria, não pode se esquecer dessa pauta, ou desse tipo de pauta, e deixar de reavivar os fatos. Não pode, especialmente, acreditar na primeira palavra de certas autoridades. Em muitos casos, não deve confiar em nenhuma palavra. É preciso, agora e daqui para a frente, pontuar os locais de risco, mostrar ao público a situação, em cada cidade, em cada Estado, e conferir o que é dito com a realidade. Em Chapecó, em Santa Catarina, no Brasil todo.
Não podemos nos esquecer, e os jornalistas mais ainda, que certas autoridades mentem, e mentem muito, e muitas agem pouco passado o sangue do inesperado. Até que mais sangue corra, mais vidas se findem pela falta de competência, pela ganância, pela ação momentânea e pela falta de coragem de tomar atitudes num país que é um mastodonte em burocracia, em leis e normas não praticadas, mas que é constante na falta de planejamento da segurança em geral, de aplicação efetiva de medidas preventivas, de vistorias periódicas e eficazes, de fiscalização da superlotação de locais públicos e que tem a inimaginável ausência de poder de polícia para os bombeiros.
Acima de tudo, é imperativo que desconfiemos e que lembremos sempre das mortes - como pode ser com essas da Santa Maria da Boca do Monte -, que não são levadas como exemplo para evitar outras perdas do bem maior que temos: a vida.
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